Por Lucimara Andrade
No final de 2025, a Alliance Insights publicou o estudo AI Adoption in the Printing Industry: From Curiosity to Competitive Advantage, sobre adoção de inteligência artificial no segmento gráfico americano. Foram mais de 300 empresas pesquisadas e 16 entrevistas com executivos de gráficas comerciais, de sinalização, comunicação visual e editorial. Os números chamam atenção: 85% acreditam que a IA é crítica para manter a competitividade, e 83% a veem como fonte de novas oportunidades. Dois terços dessas empresas já estão usando IA de alguma forma, em média há um ano e meio.
Este estudo contribui para responder a uma pergunta recorrente, ouvida em eventos e em palestras sobre inteligência artificial voltada ao nosso segmento: Onde e como a IA pode ajudar no meu processo?
Geralmente, para responder a esta indagação, alguns especialistas costumam dar respostas genéricas e exploram o que a inteligência artificial já faz de forma isolada ou o que poderá fazer no futuro. O que raramente aparece é uma visão prática e sistêmica de como ela pode ajudar atualmente, em cada etapa do processo, por meio de ferramentas já disponíveis ou embutidas em sistemas e equipamentos que muitas empresas já utilizam.
De acordo com o estudo, a adoção de IA raramente começa com uma decisão estratégica formal. Ela começa com uma pessoa curiosa – um gerente, um colaborador técnico, o próprio gestor -, que experimenta uma ferramenta e compartilha os resultados. São ferramentas muitas vezes disponíveis gratuitamente para redigir um e-mail, uma proposta comercial, ou até mesmo para organizar um relatório. Ações que parecem pequenas, mas que, somadas, mudam o ritmo de trabalho.
Desta forma, a IA pode entrar pela “porta lateral”: por meio da experimentação de ferramentas de baixo custo ou gratuitas, em áreas onde há um gargalo claro a ser resolvido, sem exigir um grande projeto de implantação. Os primeiros ganhos acontecem exatamente assim: tarefas que levavam 20 minutos passam a levar segundos; um processo de estimativa de frete que muitas vezes demora horas pode ser reduzido a minutos.
Esse retorno é cumulativo. Trata-se de pequenos ganhos que, somados ao longo do tempo, geram impactos significativos, conforme destacou um dos executivos entrevistados, citado no estudo americano “Mesmo dez minutos economizados por dia fazem diferença”.
Para entender onde a IA pode ajudar, é útil pensar no fluxo do processo gráfico, da divulgação à entrega ao cliente. Mas, antes de explorar as etapas, vale reconhecer três condições que determinam se a adoção vai de fato funcionar.
A primeira é ter dados estruturados registrados. A IA trabalha com informação. Uma empresa que não registra sistematicamente orçamentos, custos reais, tempos de setup e índices de rejeito não tem base para que qualquer sistema inteligente aprenda ou gere valor. Começar a registrar, mesmo que numa planilha simples, é um primeiro passo concreto antes de qualquer ferramenta de IA.
A segunda é ter processos minimamente mapeados. IA aplicada sobre processo desorganizado não resolve o problema; ela amplifica o caos. Esse mapeamento costuma revelar melhorias que não dependem de tecnologia nenhuma.
A terceira é cultivar uma cultura de medição. Saber o que medir, por que e o que fazer com o resultado. Sem isso, qualquer iniciativa de IA se torna um projeto-piloto que nunca escala.
Essa cultura de medição se apoia em três frentes complementares: a eficiência, que mostra a capacidade de otimizar processos e recursos; a eficácia, que indica se os objetivos e metas propostos estão sendo alcançados; e a efetividade, que revela o impacto real gerado pelas ações no dia a dia da empresa. É esse conjunto de resultados que transforma o fluxo do processo em um mapa de oportunidades.
Esse mapa se traduz, na prática, em oportunidades concretas: tanto na entrada de pedidos como no relacionamento comercial, a IA já está sendo usada para gerar orçamentos mais rapidamente, responder dúvidas frequentes de clientes e personalizar comunicações de marketing.
Na gestão administrativa e financeira, ferramentas integradas a ERPs permitem conciliar faturas automaticamente, gerar relatórios por consulta em linguagem natural e identificar anomalias de margem em tempo real, e algumas dessas funcionalidades já estão embutidas em plataformas disponíveis no nosso segmento. Na pré-impressão, a IA entra em verificação automática de arquivos, correção de erros de preflight e adequação de imagens, liberando profissionais qualificados para atividades que exigem julgamento técnico.
Na produção, equipamentos novos como os exibidos nas últimas feiras tecnológicas para o nosso segmento já incorporam IA para otimização de entintagem, controle de registro e manutenção preditiva, ressaltando que nesses casos, ela já está lá, embutida no equipamento. Vale destacar, que ao contrário que do muitos acreditam, não é necessário trocar o parque gráfico para avançar, já que é possível realizar o retrofit, a instalação de sensores em máquinas analógicas em conjunto com a tecnologia de Internet Industrial das Coisas (IIoT), que permitem coletar dados de produção e desempenho sem substituir o equipamento. É o princípio da transformação digital dentro do contexto da Indústria 4.0.
Na pós-impressão e logística, a automação de fluxos, a rastreabilidade de lotes e a estimativa de prazos atuam com impacto direto na satisfação do cliente. No relacionamento com o cliente, ferramentas de análise de chamadas e e-mails identificam padrões de insatisfação e reconhecem momentos de excelência no atendimento, com base em evidências reais.
Os resultados do estudo demonstram que os maiores desafios para a adoção de IA estão relacionados a fatores organizacionais e técnicos, especialmente a falta de conhecimento especializado, a definição de aplicações adequadas e a integração com sistemas já existentes. O custo aparece como a barreira menos relevante entre os respondentes, indicando que a dificuldade de implementação está mais associada à capacidade interna das organizações do que a limitações financeiras.
Neste contexto, o gestor pode não ter dúvida de que a IA é importante, mas tem dificuldade em determinar por onde começar. A resistência interna também aparece, pois, as equipes podem desconfiar das ferramentas, os operadores temem ser substituídos, lideranças adiam a decisão esperando uma solução perfeita que raramente chega. De acordo com o estudo, as empresas que avançaram fizeram isso de forma incremental, começando por um ou dois pontos de “dor” bem definidos e celebrando as pequenas vitórias. Muitas vezes, quando as pessoas percebem que a IA remove a parte repetitiva do trabalho, a resistência tende a cair.
As empresas líderes na adoção de IA tratam a tecnologia como iniciativa de negócio, com responsabilidade definida, governança mínima e acompanhamento de resultados, independentemente do tamanho ou do volume investido. As chamadas retardatárias ficam na experimentação pontual, sem direção. O recado para quem é de pequeno e médio porte é claro: mais importa ter intenção do que construir um departamento de IA. Começar por um problema real, designar alguém para liderar os testes, e não esperar que a solução chegue pronta do mercado.
Outro aspecto que merece atenção é a relação entre uso de IA e confiança do cliente. O papel da IA é melhorar essa relação, preservando o que nela é genuinamente humano. Isso significa usá-la para ser mais ágil e preciso e deixar para as pessoas a construção do relacionamento, a personalização do atendimento e a tomada de decisão que exige contexto e julgamento.
Comece com o gargalo que mais compromete a operação ou a satisfação do cliente hoje, não com a tecnologia mais impressionante nem com o projeto mais ambicioso. Lembre-se de que o orçamento demorado, a comunicação padronizada, a geração de conteúdo de marketing, a conciliação de faturas, são exemplos de áreas onde ferramentas de IA acessíveis já oferecem resultado concreto, muitas vezes sem investimento inicial além de tempo para experimentar.
Neste sentido, para transformar essas oportunidades em resultados concretos, uma abordagem mais eficiente consiste em iniciar a jornada com a experimentação de ferramentas gratuitas em uma área específica, designando um responsável para acompanhar e mensurar os resultados obtidos. A partir das primeiras evidências de ganho, torna-se possível ampliar gradualmente a aplicação para outras etapas do processo. Em seguida, quando a adoção já estiver consolidada e os benefícios comprovados, é o momento adequado para avaliar investimentos em integrações mais robustas. Dessa forma, a implementação ocorre de maneira estruturada e segura, evitando um dos erros mais comuns: tentar transformar tudo ao mesmo tempo e, ao final, não transformar nada.
Recentemente, visitei o evento de extensão universitária do Centro Universitário do Senai-SP e fiquei impressionada com o que vi. Alunos dos cursos superiores de automação, mecatrônica e tecnologia da informação desenvolveram pequenos sistemas funcionais voltados para empresas de pequeno porte, sem grandes investimentos, mas com capacidade de crescimento e escalabilidade. Neste contexto a contratação de estagiários ou trainees do SENAI, não apenas dos cursos da área gráfica, mas também de TI e automação, é uma forma inteligente de iniciar a adoção de IA sem custo elevado. A empresa contribui com o contexto do negócio e o estudante contribui com o conhecimento técnico. É uma troca de valor real, e resolve exatamente a principal barreira identificada: a falta de expertise interna.
Por fim, a tecnologia tem se mostrado uma aliada importante para suprir lacunas que o mercado de trabalho já criou, atuando mais como um reforço do que como uma concorrente das equipes. Essa percepção é confirmada pelos dados da pesquisa, segundo os quais 63% das empresas entrevistadas discordam que a IA reduzirá seus quadros de pessoal. A visão predominante é a de ampliação da capacidade produtiva e da eficiência, e não a de substituição de profissionais. Desta forma a inteligência artificial deixou de ser uma promessa para o futuro e já faz parte da realidade da maior parte do segmento. O que diferencia as empresas que colherão seus benefícios das demais é a disposição para dar o primeiro passo, aliada à compreensão de que iniciar essa jornada não precisa exigir grandes investimentos.
Lucimara Andrade é gestora operacional da ABITEC, divisão de inovação e tecnologia da Abigraf