30 de abril de 2026

Artigo: Fórum de Sustentabilidade em Embalagem e Consumo: entre a regulação europeia e a realidade da indústria gráfica brasileira

Participar do Fórum de Sustentabilidade, promovido pela ABRE, foi antes de tudo, um exercício de alinhamento entre duas realidades. De um lado, o avanço regulatório europeu com o Packaging and Packaging Waste Regulation (PPWR), que entra em vigor em agosto de 2026, e suas exigências de conteúdo reciclado pós-consumo (PCR), design para reciclabilidade e rastreabilidade por blockchain. De outro lado, o Brasil promulgou o Decreto Federal nº 12.688/2025, que institui a logística reversa obrigatória para embalagens plásticas e estabelece metas progressivas de conteúdo reciclado, iniciando em 22% de PCR para grandes empresas a partir de 2026. Ainda que o Decreto promulgado se refira especificamente a embalagens plásticas, a lógica regulatória tende a se expandir para outros materiais, como já ocorre na Europa com o PPWR, que abrange todas as embalagens, especialmente porque multinacionais atendem regulações de suas matrizes, que já precisam se adequar ao regulamento europeu. A exigência por circularidade chega para quem imprime em papel, produz rótulos e etiquetas adesivas ou trabalha com filmes. Portanto, este tema deve interessar a toda a cadeia gráfica. O desafio é a adequação da indústria gráfica e de convertedores a estas exigências regulatórias. O empresário gráfico que trabalha com papel tem as mesmas dores daquele que trabalha com filme: margens apertadas, exigência dos clientes cada vez maiores sem aumento de preços na mesma proporção, regulação que chega sem infraestrutura correspondente, e a necessidade de manter a empresa operando enquanto atende às demandas de mercado.

Durante o evento, ficou claro que o fórum é um espaço relevante para refletir sobre circularidade de embalagens com toda a cadeia produtiva. Na apresentação do presidente da Associação Finlandesa de Embalagens, a regulação europeia foi comparada a um “tsunami”. O PPWR foi aprovado em tempo recorde, mas carece de orientação técnica adequada. As autoridades nacionais responsáveis pela fiscalização ainda não foram designadas em diversos Estados-membros, gerando um vácuo de governança. Empresas de reciclagem estão fechando porque o sistema não está funcionando economicamente. No Brasil, também será fundamental garantir engajamento do consumidor e modelos de financiamento claros para que a circularidade não se torne apenas um conceito teórico.

Nas apresentações de fornecedores de insumos, matérias-primas e tecnologias, Valgroup, SWM, Oben Group, Toppan, Avient, H.B. Fuller, Braskem, e outros, observou-se um movimento consistente de inovação técnica para a circularidade. O denominador comum foi a busca por materiais de alta performance que reduzam gramatura, mantendo ou aumentando a eficiência do material na cadeia produtiva.

Os cases apresentados por alguns dos grandes brand owners são inspiradores. A L’Oreal demonstrou como integrar circularidade, inovação colaborativa (plataforma SPICE) e comunicação transparente ao consumidor (EcoBeauty Score). A Nestlé apresentou a jornada para desenvolver a primeira embalagem flexível com 100% de PCR certificado, desde a análise da viabilidade técnica e financeira até a aprovação regulatória, design, produção e lançamento comercial. A Unilever trouxe suas metas de redução de plástico virgem, reutilização e inclusão de PCR em escala global. Para as grandes gráficas que atendem essas marcas, o recado é claro: a adequação é condição para permanecer como fornecedor.

Mas não apenas multinacionais estão avançando. O case nacional da Cremer em parceria com a Papirus mostrou que a circularidade funciona quando o cliente exige e a cadeia responde. O papel cartão com 40% de PCR, rastreável por blockchain, permitiu o acondicionamento de mais de 91 milhões de unidades com qualidade e segurança. A Ypê também trouxe contribuições práticas. Desenvolveu embalagens com menos material  e design voltado para a reciclagem em larga escala. Migrou para 100% de PCR em frasco de Polietileno de Alta Densidade (PEAD) sem comprometer a experiência do consumidor.

Um ponto crítico é o risco de transferir o peso operacional e financeiro da circularidade para a indústria convertedora e de bens de consumo. Enquanto isso, a estruturação da coleta seletiva municipal e o engajamento ativo do consumidor não avançam na mesma velocidade. Com a maioria dos municípios ainda estruturando seus sistemas de coleta seletiva, mesmo que todas as embalagens fossem tecnicamente recicláveis, uma parcela significativa continuaria com destinação inadequada. Esse gap sistêmico exige atuação conjunta de poder público e setor privado e também abre margem para inconsistências em certificações, o que descredibiliza o esforço de quem está fazendo certo.

Do fórum, destaco três direcionamentos. Primeiro, priorizar a otimização de processos, redução de desperdício e eficiência energética. Metodologias como Lean Manufacturing são ferramentas práticas para alcançar esses resultados, reduzindo custos e contribuindo para a agenda de sustentabilidade, independentemente de regulação ou exigência do cliente.  Segundo, planejar estrategicamente a adequação. O Decreto 12.688/2025 estabelece metas já em 2026 para grandes empresas, com progressão até 2040. É fundamental desenvolver um plano de transição que considere formação técnica, investimentos em tecnologia e modelagem financeira. Terceiro, compreender que a circularidade demanda esforço colaborativo. Empresas, governos e sociedade precisam atuar em conjunto, cada qual com seu papel: indústria desenvolvendo soluções, poder público criando infraestrutura e consumidores praticando logística reversa.

Um aspecto que merece reconhecimento no fórum foi a visibilidade dada a elos da cadeia frequentemente invisíveis, mas absolutamente essenciais para qualquer pretensão de circularidade real. As recicladoras e, sobretudo, as cooperativas de catadores tiveram seu espaço, e não por acaso. O rastreio de materiais, tema recorrente em diversas palestras, só se viabiliza quando quem está na ponta, separando, fazendo a triagem e dando destino correto aos resíduos, é incluído, remunerado e integrado a sistemas de rastreabilidade. A apresentação da Accenture trouxe dados sobre como a rastreabilidade por blockchain pode transformar trabalhadores marginalizados em prestadores de serviço reconhecidos, com dignidade e registro. A presença de projetos de prefeituras, como o Programa Recicla+Pernambuco e a fala do Secretário de Sustentabilidade de Salvador, mostrou que alguns entes públicos começam a assumir sua parte na estruturação da coleta e triagem. A fala do representante do Ministério do Meio Ambiente reforçou que o esforço deve ser conjunto e em parceria com a indústria. Sem recicladores atuantes e sem cooperativas estruturadas, a circularidade não se viabiliza. O fórum acertou ao dar palco a esses atores.

Fica também a convicção de que a formação e capacitação de pessoas são o pilar de qualquer mudança consistente. Com gente preparada ao longo de toda a cadeia, desde a operação até a gestão, a circularidade deixa de ser discurso e se torna prática viável. Participar de eventos, comitês e discussões sobre o tema também é uma forma poderosa de se capacitar e contribuir para a evolução do setor.

Para o gestor gráfico que busca sustentabilidade econômica e operacional, a estratégia deve ser pragmática: implementar soluções viáveis, com transição gradual e responsabilidade compartilhada. Iniciar com ações imediatas, alinhadas às demandas de mercado e capacidade operacional. As iniciativas de maior complexidade devem ser construídas coletivamente, com investimento, infraestrutura e corresponsabilidade de toda a cadeia produtiva.

Por Lucimara Andrade

 

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