20 de abril de 2022

Sustentabilidade e Gervásio, o ESG do pastel

“Eu sou um ESG do pastel!”. Foi o que me confidenciou Gervásio, alagoano, da cidade de Arapiraca, quarenta e poucos anos, quinze deles morando na capital do estado de São Paulo, um microempreendedor individual, dono de uma barraca de “pastéis”, da feira livre, da Rua Antonio Bicudo, no bairro de Pinheiros, na cidade de São Paulo. Conheci Gervásio numa quinta-feira — dia de comer pastel de feira — depois de uma noite terrível e infeliz do time do Palmeiras, quando foi eliminado da Copa do Brasil pelo time do ASA, de Arapiraca, dentro do Parque Antarctica, na capital paulista. Foi em 2002. Uma tragédia! Pedi pastel de queijo — um dos meus preferidos — e uma garapa de cana-de-açúcar, da barraca ao lado.

Gervásio — o moço de Arapiraca — entregou-me o pastel, esperou que eu o mordesse e babasse depois de queimar a língua, para, então, perguntar, do nada: “O Senhor ‘mexe’ com livros, né?”. “Sim.” Até hoje me espanto, quando me perguntam sempre a mesma coisa e o que faço na vida. “Eu sou um livro!”, respondo sempre. A máxima — uma salvaguarda — destrava a língua do tagarela e costuma “quebrar o gelo”, na hora aguda. O que eu faço na vida — não sei a razão — costuma me incomodar muito. Não gosto de surpresas! Boas ou ruins. Não sou desconfiado; sou confiado! Gervásio, então — depois das apresentações — iniciou o papo.

Ele, em pé, trabalhando; e eu, esfomeado, esperando a minha vez, sentado num banquinho molenga, à sombra da barraca de “pastéis”. “Estou lendo um livro sobre ESG.”. “Interessante”, respondi. “Estou gostando. Muito!”, completou. “Você sabe o que significa ESG?”. Joguei a vara de pesca, com isca, e esperei a fisgada. Gervásio coçou a cabeça, tirou da frigideira o pastel da vez, posicionou-se e, então, afirmou: “Sei, sim”. Gostei dele. Parecia confiante. Soltou a língua: “ESG, sigla que quer dizer ‘Environmental, Social and Corporate Governance’. Traduzindo: ‘Ambiente, Social e Governança Empresarial’.”. “Esse cara é bom!”, pensei.

Ele respirou fundo, olhou-me nos olhos e continuou falando, aparentemente determinado e confiante. “É o espírito, o DNA de uma empresa dita responsável, sadia, comprometida, conectada com o mundo sustentável. São critérios de conduta — continuou — que devem ser adotados pelas empresas, para atraírem investidores socialmente conscientes.”. “Parabéns! Estou surpreso! Onde você aprendeu tudo isso?”, indaguei, curioso. “Lendo no livro ‘Você sabe o que é ESG?’”. “Gervásio, diga-me, por favor: você estudou até que ano da escola?”. “Terminei o ginásio. Perdi meu pai quando criança. E lá em casa as coisas ficaram ruins de tudo.”. “Lamento”, comentei, com respeito. “Leio de tudo. Até o que não entendo! No livro — continuou ele, já questionando e abrindo de vez o lacre — falam das empresas grandes, das megas, ricas e poderosas. As que faturam em dólares! E nós, os MEIs do Real? O que será de nós? Falam em selos, licenças ambientais, certificados…

Estou lendo — continuou — o capítulo que aponta os indicadores essenciais para saber se uma empresa é saudável, lucrativa e consciente a nível social e ambiental.”.

“E quais são os indicadores?”, provoquei, dando corda e aprendendo — muito — com o danado do alagoano pasteleiro. Gostei dele. Agora, duplamente. “Tem os ambientais, que mostram o comportamento da empresa em relação aos problemas ambientais, tipo mudanças climáticas, esgotamento de recursos, tratamento de resíduos, poluição etc.; os sociais, que são o modo como uma empresa lida e se relaciona com os seus colaboradores, fornecedores e clientes; e tem também o da governança, sobre as políticas empresariais e de governança aplicadas, tipo estratégia tributária, lideranças, direitos e deveres de sócios e acionistas e, também, aspectos estruturais de sua imagem corporativa.”.

Gervásio — o Professor de Arapiraca — não parava nunca de falar. Parecia uma metralhadora cuspindo fogo. Pedi, então, outro pastel de queijo. Ele não me escutou, creio. Deixei prá lá. Desisti. “E nós, os MEIs do Real?”, cobrou- me, novamente. Fui embora daquela degustação de ESG com pastel, pensando numa resposta justa e plausível para dar ao novo amigo, torcedor do ASA de Arapiraca.

Uma resposta realizável, economicamente viável, participativa, integrada, para — quem sabe? — ajudá-lo com os desafios e as necessidades de “fomentar” no seu negócio um ato de “sustentabilidade” e, possivelmente, para também ser útil a milhares de empresas de médio e pequeno porte, mundo afora. Pergunto-me: o que será delas? Empresas inimigas? E seus trabalhadores e colaboradores? Marginais? Escórias? No Brasil, a utilização de critérios ESG está ainda no início, mas as empresas — todas, sem exceção — grandes ou pequenas estão preocupadas e comprometidas com a nova ordem mundial: “Sobreviver!”.

O mercado global cobra e exige da sociedade uma “agenda sustentável”. Como “fazê-la florescer?”. Como “viabilizá-la, com fraternidade e justiça social”? Representando a Abigraf – Associação Brasileira da Indústria Gráfica, junto à FIESP – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, tenho participado de grupos de trabalho que estudam propostas para a “sustentabilidade” inteligente, racional e possível. Tenho aprendido muito. Não tanto, talvez, como dialogando com o Professor Gervásio, o pasteleiro de Arapiraca. Marcamos para a próxima quinta-feira, às 10h, outro papo-cabeça, na barraca de “pastéis”. Pretendo — desta vez — degustar ESG com um pastel light — de alho-poró, possivelmente — e, também, substituir a garapa por um doce copo de água de coco. Algo assim. Não gosto de surpresas, já disse isso. Antes de rabiscar minha possível “agenda sustentável”, consultei — desavisado de tudo — o significado de “Gervásio” no Dicionário Informal da Web. E pasmem com o que eu descobri! Gervásio significa “lança pontuda”. Indica uma pessoa com uma aguda percepção dos problemas sociais e vontade de resolvê-los, plenamente. Assim sendo!

Artigo escrito por João Scortecci – Presidente da Abigraf – Regional São Paulo –  (Revista Future Pack, edição 89)

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